Recordação

Recordação | s. f.
re·cor·da·ção

Pedaços de tempo perdido que se guardam com carinho em latas de bolachinhas de manteiga.

Nota: de quando em quando surgem linhas, agulhas e dedais no lugar de recordações, é preciso não julgar e tentar enxergar para lá do tempo. Relatos há de quem tenha encontrado entre as linhas o sorriso de uma avó ou a teimosia de uma meia que teimava em esgaçar no dedão.

 
De doce linguajar e carácter matreiro, as recordações são tão comuns quanto invulgares. Habitam sótãos e garagens, com uma preferência especial pelos Saudosos, mas também surgem em algibeiras e gavetas entralhadas, fazendo os mais Distraídos suspirar.

Recordação é o sorriso daquelas férias em 91 que espreita do cimo da estante, ou o poema sublinhado do livro que não nos lembramos de ter lido, mas que nos marcou. Conchas da praia de Melides num frasco de vidro, o ramo do dia da espiga atrás da porta, a mesa - de onde escrevo - feita pelo meu pai e as formas em folha de flandres onde eram feitos os bolinhos favoritos do avô Fialho.

São tesouros de aventuras sem tempo, espécie de máquina avançada de fazer dobrar os dias para que o ontem se faça agora. Não se deixem enganar os que pensam que só de elementos físicos se faz uma recordação. Ainda há pouco - sem sair de casa - estive com o meu pai, em Alcabideche, tudo porque me lembrei das paragens obrigatórias na Gêbêcê quando regressávamos da praia do Guincho no mini-moke amarelo. Se fecho os olhos ainda sinto o cheiro a óleo e ferragens, dos combustíveis e da tinta automóvel, escuto os barulhos da oficina no fim do expediente, os escritórios vazios. Se me atrevo a esticar o braço, quase posso jurar que a minha mão vai tocar as mãos do meu pai, ainda ásperas, de lavar com supergel.

Não me resta se não afirmar, perdoem-me os mais cépticos, que isto de que se fazem as recordações é o mesmo material de que se faz o amor: presença.


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Sob a varinha de condão da encantadora de corações pulsantes, Cris Lisbôa
(post original para instagram)

A Roda do Ano Celta (revisto em 2025)

Nota de actualização — Outubro 2025

Este texto foi originalmente escrito em 2020, quando comecei a explorar o que então conhecia como “a Roda do Ano Celta”.

Nos anos que se seguiram, o caminho ensinou-me que parte da informação que partilhei era uma leitura contemporânea - sobretudo inspirada pela Wicca e por correntes neopagãs do século XX - mais do que um reflexo fiel do que sabemos historicamente sobre os povos celtas.

Mantive o texto, com algumas revisões, porque ele marca uma fase bonita e honesta do meu percurso. Acrescentei apenas o que aprendi entretanto: que a “Roda do Ano” como a conhecemos hoje é uma síntese moderna, criada a partir de tradições sazonais antigas mas reinterpretada através da espiritualidade moderna - incluindo o Druidismo contemporâneo, como o da Order of Bards, Ovates & Druids (OBOD), onde encontrei mais tarde uma casa mais fiel à minha própria sensibilidade.

A verdade é que tudo vive, também, em revisitação. Escrever - e reescrever - é parte do ciclo. 🌙

A Roda do Ano


A primeira vez que ouvi falar na Roda do Ano foi quando comecei a ler sobre o povo Celta. Cheguei aos Celtas porque sentia necessidade de prestar homenagem à terra que piso e aos que vieram antes de mim.

Ser Portuguesa tem muito que se lhe diga - foi o cabo dos trabalhos meter-me nisto de “honrar antepassados”. Cheguei a pensar muitas vezes: “Onde raio me vim meter?” - e lembrei-me das aulas de História onde só participava de corpo presente. Ter-me-ia dado jeito, agora.

Temos um património genético que só faz lembrar o jantar de domingo à noite: ele é Celtas (Lusitanos, Galaicos e Cónios), Gregos, Fenícios, Romanos, Cartagineses, Suevos, Visigodos, Mouros, Árabes… uma salganhada bonita. Por isso, quando quis olhar para trás, tive de fazer uma escolha.

Em vez do “um-dó-li-tá” , olhei para a minha família. E percebi que, não negando a costela alentejana de Grândola, as raízes dominantes são Ribatejanas e de Transmontanas. A escolha caiu nos Celtas - vá, eu estava a torcer por isso, só precisava de uma justificação plausível ahaha.

Não há como negar a presença Celta em Portugal. Muitas das nossas festas tradicionais guardam ainda ecos pagãos, sobretudo no Norte do país - festas da colheita, fogueiras, danças sazonais. Mas é importante lembrar: a estrutura da Roda do Ano, com oito festivais marcados e nomes fixos, é uma criação moderna, inspirada nesses ritmos antigos mas reconstruída no século XX por correntes neopagãs (como a Wicca) e pelos movimentos de renovação druídica.

ilustração do livro Wicca, Harmony Nice

ilustração do livro Wicca, Harmony Nice

Entre essas tradições modernas, o ano divide-se simbolicamente em duas metades - a luminosa e a escura - e quatro estações, celebradas através de oito festivais:

🌙 Samhain (31 de Outubro) – o portal do Inverno e o novo ano celta (não defendido por Ronald Hutton, a visão do novo ano celta é uma visão contemporânea)
🌙 Imbolc (1 de Fevereiro) – o tempo dos começos e dos nascimentos.
☀️ Beltane (1 de Maio) – a união do fogo e da terra, o florescimento da vida.
☀️ Lughnasadh (1 de Agosto) – a primeira colheita e o agradecimento à abundância.

E, entre estes, os Solstícios e Equinócios:
🌞 Alban Arthan (ou Yule, o Solstício de Inverno), Alban Eilir (ou Ostara, o Equinócio da Primavera), Alban Hefin (ou Litha, o Solstício de Verão) e Alban Elfed (ou Mabon, o Equinócio do Outono).

O meu altar de Lugnasadh (ou Lammas), que se comemorou no passado sábado.À falta de uma mesa cheia, e à luz de uma pandemia, celebrei-o online com as minhas magas, a Joana do Ninho e a Joana do Vento.

O meu altar de Lugnasadh (ou Lammas), que se comemorou no passado sábado.

À falta de uma mesa cheia, e à luz de uma pandemia, celebrei-o online com as minhas magas, a Joana do Ninho e a Joana do Vento.

Estes nomes e datas foram sistematizados mais recentemente, mas reflectem - de forma simbólica e bela - os ciclos que sempre orientaram a vida humana: o nascimento, o crescimento, a colheita e o repouso.

Para mim, celebrar a Roda do Ano é celebrar o tempo da terra e o meu próprio tempo interior. Cada festival lembra-me que sou natureza, e que o tempo não é linear, é circular.

Honrar estes ciclos devolve-me ao respeito pelo ritmo das coisas. Recorda-me que o tempo tem o tempo que o tempo tem.

Honra.









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Fontes e leituras recomendadas:
– Ronald Hutton, The Stations of the Sun: A History of the Ritual Year in Britain (Oxford University Press, 1996)
– OBOD , The Eightfold Wheel of the Year and Festivals (druidry.org)

Olívia e o Vento

Aproximei-me quase como que pedindo desculpa, como se a minha presença não fosse digna da mesma terra. Sacudi o pó da minha roupa, e ajeitei o cabelo, sorri. Ela, envergonhava-se sob o sol do meio dia, folhagem desperta, pétalas que te convidam a ficar perto. Sentei-me sob as suas folhas e como quem escuta, sem querer querendo, a conversa da mesa ao lado no café, escutei-lhe a conversa com o Vento:

- Olívia - nome que nos deixa a boca entaremelada de beleza, pensei, fica-lhe tão bem o nome - porque não me deixas amar-te? - continou o Vento.

 
Recordo-me olhar de relance e Olívia parecia ter crescido sob uns sapatos de salto que guardara para quando Ventura, o vento, soprasse. Sorriu como quem não sabe o que fazer às folhas, e as suas pétalas, outrora escondidas pela timidez sob o sol que brilhava por entre a folhagem, já não eram tom céu ao nascer da noite, quantas cores o dia tem, mas cheiro a ternura e colo, mãos de avó no cabelo, café da manhã. Olívia tinha o cheiro da felicidade e dançava, e eu entendi porque Ventura soprava tanto naquela região da Amazónia. Ventura e Olívia dançavam, e eu aprendi que impossíveis é coisa que não existe no amor.

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Escrito sob a varinha de condão da encantadora de corações pulsantes, Cris Lisbôa

De que é feita uma vida feliz?

Esta Ted Talk do Robert Waldinger sobre a Felicidade e de como damos por nós numa corrida em busca de uma ilusão:

What keeps us happy and healthy as we go through life? If you think it's fame and money, you're not alone - but, according to psychiatrist Robert Waldinger, you're mistaken. As the director of a 75-year-old study on adult development, Waldinger has unprecedented access to data on true happiness and satisfaction.