Amar-te

 
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Amar-te é luta diária que se mistura em conforto e escassa gratidão. Vivemos na ilusão de uma versão melhor. De um amanhã que tarda em chegar e de um passado como janelas que se abrem para o sol. Tudo porque escolhemos esquecer os gritos abafados na estrada, atrás do volante. Esquecer a raiva e a angústia. Escolher sorrir.

Mas sabes? Escolho amar-te, mesmo quando choras ao espelho olhando-me de volta. Amar-te inteira e sem reservas ou condições. E perdoar-te por tantas vezes me olhares sob o signo de uma perfeição que não tem espaço para existir.

Ah, Inês, como posso dizer-te que os pés que evitas olhar são caminhos por acontecer? Que a magia dos dias acontece mesmo quando não estás atenta? especialmente quando não estás atenta. Escuta. Lá fora canta um passarinho e o teu gato espreguiça o sono do corpo para o ouvir. É preciso olhar para dentro para melhor escutar o mundo, mas não te percas por aí.

A magia está no vestido que passeias frente ao espelho antes do dia acontecer, de como danças devagar ao som da "I'll be seeing you", da Billie Holiday, enquanto o cheiro do café se espalha pela casa, no sorriso que se desprende no "Bom dia" do A. Nas palavras que se transformam frases à espera de um papel onde as derramar, enquanto escutas o mar bater lá fora.

Amar-te não é fácil, mas deixa-me lembrar-te desse corpo que habitas, portal sagrado do mundo:  olhos que filtram a beleza dos dias, olfacto arquivo de memórias tantas, o conforto num prato de "pasta", toque que carrega afectos, prazer, amor sem palavras, e como escutar um passarinho na janela é acto de revolução interna: estou aqui, basto-me, sou amor.  

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Sob a varinha de condão da encantadora de corações pulsantes, Cris Lisbôa

No amor só se entra descalço

É difícil escrever sobre o amor quando o prendemos a um rosto, é difícil porque amar nos confronta com a nossa própria mortalidade. Queremos ter tempo para viver o amor e o tempo escorre-se-nos pelos dedos.

É difícil escrever sobre o amor porque temos vergonha de mostrar ao mundo o amor lamechas, o amor fofinho, o amor vulnerável que dá o coração às balas sem nunca perder o sorriso tonto.

O Manuel António Pina escreveu um poema cujo verso final me ficou gravado, talvez o eternize na pele, um dia, como lembrete de que no amor só se entra descalço.

”entro no amor como em casa”
(este é o teu gatilho de escrita, abensonhado*)

(as participações podem ser, ou não, partilhadas, públicas ou anónimas, ditas ou escritas, o teu coração o saberá, dá-lhe a palavra)

*expressão adoptada do inspirador Mia Couto, junção das palavras “abençoado” + “sonhado”, que são vocês.