Escrevo para (me) entender o mundo.
É fuga, terapia e abraço.
Escrevo porque sinto raiva, porque o tempo escapa e porque preciso de o agarrar. Por amor, de loucura e de saudade. Escrevo porque a cafeteira italiana estava tão bonita, ao lume, que o meu coração não aguentou. Ou porque a lembrança do teu gesto na barba me entrou de rompante escancarando a porta entreaberta. Escrevo porque a vida é demasiado e porque não tenho outra forma de dizer "estou presente" sempre que a luz da manhã enche o quarto.
Hoje abri as janelas e a rua cheirava a mar, quis escrever sobre isto mas percebi que, para mim, tudo já estava dito. Ainda assim, serviu me de pretexto para vos falar de tudo isto que é a escrita para mim. E isto é bonito porque sei que para qualquer outra pessoa, esta mesma frase, será um "gatilho" diferente.
Recebi muitas respostas interessantes sobre isto da escrita e de se manter com foco, e alimento criativo, um blogue. Também fiquei a conhecer projectos incríveis que me inspiraram muito e me fizeram sonhar. Obrigada!
Então hoje, se leste tudo isto até aqui, proponho-te um desafio que poderás - ou não - partilhar (de forma privada) comigo. O caminho é pelo coração. Que estas palavras te sejam gatilho: "Hoje abri as janelas e a rua cheirava a mar"
(post original para instagram)
Grão Único
Sofro de síndrome do impostor, a minha auto-estima está frequentemente nas lonas e sentir que não sou capaz e que talvez seja melhor nem tentar é constante nos meus dias. Isto significa que carrego em cima a responsabilidade de me consolar e me lembrar, diariamente, que sim, sou capaz, que tenho um mundo dentro de mim, que sou um grãozinho deste universo mas que não há outro grão igual a mim. Isto é muito cansativo, porque é mais fácil deixar que a outra voz me guie - mais confortável, mais quentinho, o caminho seguro e que já conheço - do que me impor sobre ela e tornar visível tudo o que trago dentro.
Esta foto que escolhi é a ilustração perfeita de tudo o que tenho sentido: um caos controlado. É assim que vou, nem demasiado quente nem demasiado frio. Morno. Porque assim agrado a toda a gente. Não ando nua pela casa, não uso vestidos, porque não tenho um corpo perfeito, dizem as vozes cá dentro. Não vou colocar esta foto nem sequer tirá-la, porque não quero destoar nesta montra linda que são as redes sociais.
Comentava ontem com uma amiga uma imagem muito clara que me veio à ideia durante o fim de semana: algures, no meu crescimento, coloquei-me uma presilha de segurança. Fui eu que a coloquei. Nem demasiado isto, nem demasiado aquilo, ficas assim que assim ninguém tem o que dizer. E agora? agora tenho vontade de rebentar esta merda toda. Quero a verdade, o cru, o real, quero o caos! Quero as linhas espalhadas pelo espaço - sem me preocupar em ir buscar o aspirador para ir limpando - quero ler mais do que um livro ao mesmo tempo e ser capaz de os deixar a meio se assim me apetecer - sem me sentir culpada, porque tenho a sensação que o Bolaño me culpa do além por ter largado o "2666". Quero poder escrever "matei mais uma planta", porque acontece, elas não estão sempre lindas e perfeitas para uma foto de instagram, são seres vivos como nós. Não somos "picture perfect", não vivemos vidas perfeitas, vivemos vidas reais, imperfeitas e que, na sua imperfeição, são tão lindas! Caramba, se não há beleza mais bonita do que a da vida que acontece.
Eu quero sentir-me bonita, capaz e única, não quero sentir que tenho de corresponder a estes padrões de perfeição impossíveis. Quero ter a liberdade de escrever aqui que me sentei a escrever com remelas nos olhos e os dentes por lavar e que, muito provavelmente, não tarda cai trabalho e me vou lembrar de lavar os dentes lá para as 19h da noite. E ninguém faleceu por isso, nem vou ser condenada em praça pública. Quero sujar-me, quero criar, quero estar viva!
"Estás a escrever tudo isto para colocar justamente no sítio que tanto criticas" diz-me esta voz, e eu quase desisto de ir em frente, mas depois lembro-me que sou um grãozinho único no meio de tantos outros grãozinhos únicos que talvez sintam o mesmo que eu. E eu quero dizer-lhes que há um mundo inteiro dentro de cada um de nós à espera que tiremos as presilhas de segurança.
(post original para instagram)
Creativity
“The most regretful people on earth are those who felt the call to creative work, who felt their own creative power restive and uprising, and gave to it neither power nor time.
”
Alguns infelizes
Todos precisamos de que nos amem.
E no entanto, alguns infelizes
não sabemos viver para outra coisa.
Amalia Bautista,
Estou Ausente
Averno
