Querido avô Espada.

Querido avô, 

Há dias em que as palavras nos saem quase arrancadas ao peito.
Pensei que fosse mais fácil escrever-te, porque me é sempre tão mais fácil escrever o que vai cá dentro, mas descobri que me dói sempre um pouco mais a cada ano que passamos sem ti. A tua ausência é-me cada vez mais real e não mais fácil, como ingenuamente supus que se tornasse. Pensei que o tempo lavasse as feridas, curasse as mágoas, que com ele as memórias se tornariam mais leves e que acabaríamos por aceitar a tua partida como a ordem natural... 

mas não. 

Pode ser de mim, pode ser de te termos deixado partir sem que te pedíssemos que nos falasses de ti, mas nunca foste de grandes conversas e julgo que te vou percebendo melhor agora, com o correr do tempo. 

escuta, tenho tanto medo de me esquecer do teu riso.  

Olha, voltei a Grândola, - como se te fosse reencontrar por lá... - sei que não foste assim tão feliz, nesse tempo, mas foi a terra que te trouxe a avó, que nos trouxe a nós todos, 4 filhos, 3 noras, 1 genro e 8 netos. Sei, também, que não querias lá voltar, que querias deixar a aldeia sem olhar para trás, e que assim o fizeste. Também nunca falámos sobre isto, nunca chegámos a esta fase da vida, talvez seja por isto que me custa cada vez mais a tua ausência, não poder ouvir-te. 
Comigo, guardo as cartas que escreveste, as que pediste para queimar, ainda bem que a avó nunca teve a coragem de o fazer, é assim que te vou mantendo vivo junto a mim, é assim que vou conversando contigo, no silêncio. 

 

Farias 82 anos hoje. 
E eu gostava de estar ao pé de ti para te ajudar a soprar as velas, para te abraçar, para te poder responder ao que perguntavas à avó vezes e vezes sem conta, no início da vossa história: 


"Para quê tanto amor"? para isto, avô. 
meu querido avô.

 

Com amor,
Inês
 

Lagoa de Santo André

Lagoa de Santo André

Annabel Lee

It was many and many a year ago,
   In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
   By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
   Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
   In this kingdom by the sea,
But we loved with a love that was more than love—
   I and my Annabel Lee—
With a love that the wingèd seraphs of Heaven
   Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
   In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
   My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsmen came
   And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
   In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in Heaven,
   Went envying her and me—
Yes!—that was the reason (as all men know,
   In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
   Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
   Of those who were older than we—
   Of many far wiser than we—
And neither the angels in Heaven above
   Nor the demons down under the sea
Can ever dissever my soul from the soul
   Of the beautiful Annabel Lee;

For the moon never beams, without bringing me dreams
   Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise, but I feel the bright eyes
   Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
   Of my darling—my darling—my life and my bride,
   In her sepulchre there by the sea—
   In her tomb by the sounding sea.

 

Edgar Allan Poe

Os melhores anos da minha vida

Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem. 

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas, 
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar. 

Os melhores anos da minha vida troquei-os
por isto. 

 

José Miguel Silva,
"Vista para um pátio" seguido de "Desordem"
Relógio D'Água

Experiência

Como suplemento de um filme a sério,
onde os actores fizeram o que puderam
para me emocionar e até fazer-me rir,
foi projectada uma experiência interessante
com uma cabeça.

A cabeça,
ainda há pouco pertencente a - 
surgia agora decepada,
cada um podia ver que não tinha tronco.
Da nuca pendiam tubos do aparelho
graças ao qual o sangue continuava a circular.
A cabeça
sentia-se bem.

Sem sinal de dor ou pasmo, simplesmente,
seguia com o olhar uma lanterna a mover-se.
Levantava as orelhas ao som de uma sineta.
Com o nariz molhado sabia distinguir
o cheiro do toucinho do inodoro não-ser,
e, lambendo-se com nítido deleite,
segregava saliva honrando a fisiologia.

Esta cabeça canina e fiel,
esta cabeça canina e honesta,
franzia o focinho e lhe faziam festas,
na boa fé de ser ainda uma parte de um todo
que se encolhe quando lhe afagam o dorso,
e dá à cauda.

Pensei na felicidade e senti medo. 
Porque se a questão da vida fosse essa,
a cabeça
era feliz.

 

Wisława Szymborska
Paisagem com Grão de Areia
Relógio D'Água