Experiência

Como suplemento de um filme a sério,
onde os actores fizeram o que puderam
para me emocionar e até fazer-me rir,
foi projectada uma experiência interessante
com uma cabeça.

A cabeça,
ainda há pouco pertencente a - 
surgia agora decepada,
cada um podia ver que não tinha tronco.
Da nuca pendiam tubos do aparelho
graças ao qual o sangue continuava a circular.
A cabeça
sentia-se bem.

Sem sinal de dor ou pasmo, simplesmente,
seguia com o olhar uma lanterna a mover-se.
Levantava as orelhas ao som de uma sineta.
Com o nariz molhado sabia distinguir
o cheiro do toucinho do inodoro não-ser,
e, lambendo-se com nítido deleite,
segregava saliva honrando a fisiologia.

Esta cabeça canina e fiel,
esta cabeça canina e honesta,
franzia o focinho e lhe faziam festas,
na boa fé de ser ainda uma parte de um todo
que se encolhe quando lhe afagam o dorso,
e dá à cauda.

Pensei na felicidade e senti medo. 
Porque se a questão da vida fosse essa,
a cabeça
era feliz.

 

Wisława Szymborska
Paisagem com Grão de Areia
Relógio D'Água
 

The White Birds

I would that we were, my beloved, white birds on the foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low on the rim of the sky,
Has awaked in our hearts , my beloved, a sadness that may not die.

A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled, the lily and the rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the wandering foam: I and you!

I am haunted by numberless islands, and many a Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come near us no more;
Soon far from the rose and the lily and fret of the flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on the foam of the sea!

 

W.B. Yeats,
Uma Antologia
Assírio & Alvim

Na tarde vaga

Na tarde vaga e vasta,
Cheia de vozes fora
Em que o humano contrasta
Com o afago da hora,

Levanta-se de mim
Um arrepio da alma
Um mau-sossego afim
A ter perdido a calma, 

E a ânsia de abandonar
Tudo quanto eu quis,
De ir para além mar
Sem lar nem país.

Sofre em mim um momento
A dor de não poder ser.
Tenho no pensamento
Não poder conviver.

E, gota a gota, um pranto
Quasi sem causa afaga
O meu trémulo quebranto,
E meu coração alaga.

Coração indeciso,
Quem quis que tu vivesses?


14-5-1918
Fernando Pessoa,
Poesia 1918-1930
Assírio & Alvim

Dobrada à moda do porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

 

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa,
Poesias de Álvaro de Campos
Ática