Algumas coisas

(Eu sei que tudo é secreto e tudo é improvável)
Regressas de repente do lugar insuportável das sombras e ficas lá
Às vezes falo de coisas determinadas
afasto-me irremediavelmente do silêncio e do horror de tudo

Está tudo a acabar e a começar e no entanto
o peso da memória instala-se em todas as coisas de dentro para fora
Surges de todos os lados e de um só, venham-me dizer que o tempo
está aqui no meio de nós e falar-vos-ei com palavras, palavras,
                                                                                        [palavras

Emociono-me com a ciência de que estás aqui e não
tão própria e imprópria sobre o impuro esquecimento de tudo
Que distância entre tudo, sobretudo tão perto de tudo!

 

 

Manuel António Pina,
TODAS AS PALAVRAS poesia reunida
Assírio & Alvim

Finale: Allegro

Seja como for, é triste que a juventude tenha passado.
Tchekov

 

Eu ia para o amor e deste-me sexo, grande porra
a minha vida...

Isto ia ser o começo de mais um poema
sobre a idade das trevas.
Mas agora vou deitar no contentor do lixo
estes óculos escuros e falar de coisas
mais felizes como, por exemplo, a dor nas costas
que hoje me atormenta, pois dessa
conheço tudo, a origem e o significado.
(Foi ontem, ao empurrar uma estante;
a minha vida parece resumir-se a isto: 
deslocar dúvidas de um quarto para outro.)

Mas não - sejamos justos - nem tudo são aspas,
nem tudo são vespas, nem tudo mordaças.
Antes quero, na verdade, prestar homenagem
à minha senhor, ao junco de sal
onde temos morado. É ela quem sossega
o nervosismo dos meus versos e me oferece
biscoitos, chá preto, o beijo mais longo
debaixo do sol. Se vocês a conhecessem,
não afirmariam outra coisa senão a glória
(mesmo imerecida) de ser amado por quem sabe
que, na vida, apenas o amor nos poderia salvar
e o resto, já sabem - mentira.

 

 

José Miguel Silva,
"Vista para um pátio" seguido de "Desordem"
Relógio D'Água

Aporismo.

Quando o amor não nos basta, fechamos os olhos e abrimos as mãos.
Deixamos partir. 

Acreditamos, ingenuamente, que reaprenderemos a caminhar. 
Assim, com um pedaço do coração arrancado ao peito, ainda a sangrar. 

O vazio que fica não deixa, no entanto, de ter corpo. Tem nome, tem idade. 
Faz parte de nós como que um membro amputado que acreditamos sentir  


(desconfio que para sempre).


Como abrir as mãos e do pedaço arrancado tirar também o amor, ainda não descobri fórmula.