"We are flint and steel to each other."

Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço - alguém sabe 
onde nos levam? Dão-nos 
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero

lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete 
que mal chegámos a ouvir,
hora e meia de remorso

e distorção. Não te salvo, 
não me salvas - nem é certo,
quando o medo se demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar 
o dissabor de viver. 

 

Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira,
Averno

TRITÃO


Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar. 

Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial - 

não há palavras 
suficientes a este amor. 
E um poema, mesmo de pedra, 
também passa, a menos que 
te ganhe para sempre os olhos. 


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014