4 de maio

Hoje, um homem aproximou-se de mim. Vestia fato e usava gravata, mas eu reconheci-o de imediato.

Era um homem do Instituto. Estava disfarçado de pessoa normal.

Perguntou-me as horas e eu disse: Tenho dois trovões dentro dum envelope dos correios.
O da esquerda é de madeira e o do meio é fêmea.
É assim que nascem as cartas.

Ele, surpreendido com a minha resposta,
foi-se embora e não me internou.

 

Mas, por via das dúvidas, fui para casa com os sapatos calçados nas mãos.




O livro do ano
Afonso Cruz
Alfaguara

Fagulha

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas 
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas 
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria 
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria 
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia 
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.



Ana Cristina César

 

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