Myra

De facto, no quarto de D. Mafalda, vinha vindo uma manhã pardacenta, augúrio da estação das temperaturas menos baixas, mas melancólico. Um anúncio de primavera cinérea. Baço, como já era baça a conversação, tão distante das asas ternas do desejo. A pequeníssima labareda do ciúme, nada atiçava naqueles dois. Nem a beleza parda que se acendia naqueles largos espaços lá fora. Nenhuma alegria no primeiro roçagar das aves e dos regos de água. A desmedida tristeza dos amantes que não se amam, a que contamina paisagens que ficam sem exultação, sem descrição possível. O mundo acaba, ou não nasce, o amor.
— Maria Velho da Costa, «Myra». Assírio & Alvim.

a Lisboa de Ulisses.

Terminei, ao final da manhã, o romance «A Cidade de Ulisses» de Teolinda Gersão. Uma história do amor real em toda a sua complexidade, uma história de amor em e com Lisboa.
Paulo Vaz, personagem principal, narrador, é convidado pelo CAM (Centro de Arte Moderna) a fazer uma exposição sobre a cidade e, como artista de renome, seria de esperar que a resposta fosse sim, mas o aceitar ou não dessa proposta faz com que Paulo olhe em retrospectiva toda a sua vida. A par com a situação que o país atravessa, Teolinda faz-nos embarcar numa viagem pelo Portugal de há trinta anos atrás, leva-nos pela mão numa Lisboa dos anos 80, do FMI, saltitando entre o antes e o agora da 'Cidade de Ulisses', entre a lenda e a História. 
Lisboa como paisagem. Como cenário. Lisboa berço. Paulo e Cecília partem na busca (in)consciente de uma Lisboa só deles, dos seus passos, dos seus olhos, dos seus sentidos. É nela que se encontram, que se amam, que se perdem e reencontram. 

«Uma cidade construída pelo nosso olhar, que não tinha de coincidir com a que existia. Até porque também essa não existia realmente, cada um dos dez milhões de portugueses e dos milhões de turistas que por ela andavam tinha de Lisboa a imagem que lhe interessava, bastava ou convinha. Não havia assim razão para termos medo de tocar-lhe, podíamos (re)inventá-la, livremente.» p. 33

É através de Paulo e Cecília que regresso a Bea e Luís, sempre Luís. Ao contrário de Ulisses e Penélope, a história de Bea e Luís nunca foi uma história de espera, mas de urgência. Nunca houve promessas de regressos ou de toda uma vida. Houve entrega e momentos. Bea amou Luís com a calma de Cecília. E tal como Cecília também partiu.

Lisboa foi cenário, foi paisagem. E Bea, ao contrário de Paulo, teve medo de tocar-lhe de a estragar, de a mudar. Não enfrenta Lisboa por sabê-la diferente, por sabê-la nunca mais igual à Lisboa que os namorou. 


Bea e Luís nada têm que ver com esta «Cidade de Ulisses», têm apenas que ver com a Lisboa que conheci. 

«A Cidade de Ulisses», Teolinda Gersão Sextante Editora

«A Cidade de Ulisses», Teolinda Gersão
Sextante Editora