«também sei que o amor é sinistro»

A água anda a uma velocidade branca, porém tu dizes: também sei que o amor é sinistro - e entretanto eu tomo drogas para celebrar um espaço louco, as redes amadurecem para a cerimónia ritual da pesca e os peixes amadurecem para a sua morte fervente - também vi as máquinas caminharem ao lado das colinas bêbedas, diz alguém devagar para não ser ouvido, de súbito há um lugar que foge pelas trevas dentro, mas de ti o que conheço é um lenço de grandes pétalas encostadas ao rosto, e o coração é minado pelo som das próprias pancadas, porém tu dizes: o amor é uma coisa silenciosa, e logo a tua voz cai no silêncio com a cauda enrolada, mas ainda se ouvem as canções do ocidente percorridas de anis e cantáridas, e mais abaixo as guitarras meditam a música, e a luz inclina-se para sermos redondos - oh silêncio: geometria absoluta - e o teu corpo pousa na delicadeza, é quando a beladona é uma flor que eu não conheço, e tu dizes: o amor é incorrigível como um sol de pé - então chega o tempo da transformação das imagens, e eu amo-te como o sal e a areia se deitam juntos, e nas terras do interior a ciência é esta: tuas ancas violentas, o teu cabelo frio.

Herberto Helder 

«é a história mais linda que conheço»


Conta-me outra vez, é tão bonita
que não me canso nunca de a ouvir.
Repete-me de novo, os dois da história
foram felizes até à morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de a enganar. E não te esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
continuavam a beijar-se cada noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais linda que conheço.


Amalia Bautista 


via João César
obrigada!** 

Pensar - Pescar


pensar é estar à beira de um rio
saber que por baixo da ponte
as àguas são mais densas
e permanecer de lábios e dedos atentos
à linha rasa das palavras

pensar é estar à beira de lábios e dedos
saber que por baixo da água
as palavras são mais densas
e permanecer de rios atentos
à linha rasa das pontes

pensar é estar à beira de uma ponte
saber que por baixo dos lábios e dedos
os rios são mais densos
e permanecer de palavras atentas
à linha rasa das águas

pensar é estar à beira das palavras
saber que por baixo do rio
as pontes são mais densas
e permanecer de águas atentas
à linha rasa dos lábios e dedos


António Barbedo de Oliveira
Poesia 71,
Editorial Inova Limitada 

Momento de Poesia


Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
Compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Almada Negreiros
Poesia 71,
Editorial Inova Limitada