encontrar-te tão assim de visita


(...)
Estava a porta entreaberta,

não bati sequer. Sempre me espanta encontrar-te tão
assim de visita, na tua própria casa, em ti.
Era difícil tocar-te, mexer-te. Na parede branca
oscilam os ramos, as sombras de ramos da alameda.
Era mais fácil beijar-te, por falta de palavras. Tão profundo
é o silêncio, que se ouvem todos os rumores,
o ladrar de um cão, o silvo de uma fisga,
a pancada dos ramos no entardecer, lembrando
um sino submarino. Pensava que amar-te (querer-te livre)
começava na ponta dos dedos e ia até às ideias mais abstractas,
que o teu corpo era a melhor expressão possível de ti, e ainda
muda, como um hieróglifo enterrado
na areia do teu deserto favorito (algures na anatólia),
pensava que serias um dia aquela singular memória
que nos separa, um breve instante, de tudo quanto vemos,
e muitas outras noites, acordado junto ao teu corpo ausente
seriam como esta: vidros abertos sobre um ror de estrelas,
nuvens ligeiras navegando em direcção ao mar,
o jovem coração, liso detrás das grades, dos ossos.
(«Expressão» é tão inexacto! Na verdade existes
no teu corpo, com todo o passado embrulhado
na pele sensível, no calor animal do gemido que
às vezes sopra dos teus sonhos, e até o futuro
misteriosamente cabe no exíguo volume
entre mãos.) (...)

António Franco Alexandre, «Uma fábula», 2001

 

Coração sem Imagens

Deito fora as imagens, 
Sem ti para que me servem 
as imagens? 
 
Preciso habituar-me 
a substituir-te 
pelo vento, 
que está em toda a parte 
e cuja direcção 
é igualmente passageira 
e verídica. 


Preciso habituar-me ao eco dos teus passos 
numa casa deserta, 
ao trémulo vigor de todos os teus gestos 
invisíveis, 
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve 
a não ser eu. 
 
Serei feliz sem as imagens. 
As imagens não dão 
felicidade a ninguém. 
 
Era mais difícil perder-te, 
e, no entanto, perdi-te. 
 
Era mais difícil inventar-te, 
e eu te inventei. 
 
Posso passar sem as imagens 
assim como posso 
passar sem ti. 
 
E hei-de ser feliz ainda que 
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho 

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Ainda hoje me arrepio. A quase certeza que ambos sentimos. O abanão. Foi assim, há uns anos atrás, que descobri e partilhei este poema. Hoje partilho-o porque há coisas que devem permanecer. Como uma luz de presença.  


12

até pode ser que nem gostes muito destas palavras
nem de mim agora que os meus gestos
são tão diferentes
agora que recordas tanta coisa que eu esqueci
e ainda bem ninguém pode viver
com o peso do que ficou para trás
agora que os livros as canções as laranjeiras
ficaram para sempre naquele cenário de primavera
que fazia de nós todos o garantiam
presas tão fáceis

pressinto que hás-de culpar-me sempre
pelos anos que perdemos por becos ruas avenidas
esquecendo à toa aquilo
que só um ao outro deveríamos ter ensinado

talvez até tenhas razão mas eu chegara
àquele lugar da vida onde só se pode
amar para sempre e sem remédio
e de um dia para o outro a minha boca
desaprendeu disciplinadamente o sabor da tua
e os teus passos a tua voz o céu de paris
a janela sobre os telhados os domingos de sol
atravessaram as mais arrastadas fronteiras
e estabeleceram os seus limites do lado de lá
de todas as madrugadas que eram nossas

houve mesmo um tempo desculpa em que esqueci
as cartas os cigarros as fugas os recados
as canções as camélias o jardim
onde me esperavas às nove da manhã
a velha que nos olhava abanando a cabeça
entre estátuas decepadas e gatos vadios

talvez um dia quem sabe o destino
volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar correctamente
todas as palavras que admitiam ter nascido
do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
e sonhar com mundos à espera de serem salvos
pelas nossas palavras

tempo para nos olharmos e encontrarmos
sem remorsos
a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
que levam ao coração absoluto da terra

talvez um dia quem sabe eu volte
a faltar às aulas para esperar por ti

Alice Vieira