I: "até me parou o coração."
S: "mas voltou a bater, certo? é o que interessa."
Ou como, tantas vezes, me faz ver as coisas ao contrário. my own jiminy cricket.
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I: "até me parou o coração."
S: "mas voltou a bater, certo? é o que interessa."
Ou como, tantas vezes, me faz ver as coisas ao contrário. my own jiminy cricket.
Olha... queres ouvir? tinha tantas coisas para te contar! tanta coisa que tem acontecido! Ias ficar feliz - não ouças o que a avó te diz, já sabes que exagera sempre - a mãe continua reguilona, sim, não passa e com a idade apura. O Tinho parece-se cada vez mais contigo, o andar calmo, os teus passos, a mesma postura. Havia de nos ficar um Fialho como tu, não era? Ficou. A família continua a encontrar-se naquele cantinho especial que nos ensinaste a amar. Ainda não descobrimos a prima Amélia da Arrifana, mas não desistimos. Os Brincos-de-Princesa estão cada vez mais bonitos, e sabes que são as flores que mais duram no nosso jardim?! Nem te vou contar as vezes que o pai já deu cabo das flores... havias de te rir, assim, daquela tua maneira, a levantar ligeiramente os ombros. Assim, com ar de reguila. Assim, a enternecer-nos. Assim, a brincar com o tempo como quem fica para sempre. Tenho muitas saudades tuas, trinca-espinhas.
há um abraço apertado que nos arranca do chão. há uma mão que agarra a nossa e diz tudo sem dizer nada. há sorrisos magoados. depois há o que é e o que foi... e a linha tão ténue que o divide.
"se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição"
Al Berto
Rumor dos Fogos, 1983
O Medo,
Assírio Alvim