não pensei dar três passos, sem voltar dois atrás para agarrar a tua mão. "calma, filhota", ouço-te dizer, à noite, que é quando ainda te deixo existir. e achei que não sobreviveria sem o teu riso, as nossas gargalhadas, que o mundo que nos inventara, de onde não consigo sair, ruiria com a tua ausência. quero contar-te que dei cinco passos, que voltei atrás e já não estava lá a tua mão, que dei mais três com medo de cair por não estares lá para me apanhar. mas que mesmo sem ti, aprendi a voar.
se pudesses ver.
A meio da tarde o dia ainda não foi encetado,
parece barricar-se nas folhas moles
dalgum livro. Tu já sabes como eu gosto dos cafés
nas horas de pouco movimento. Os empregados
podem entregar-se a querelas ruidosas nessa altura
e os reformados na mesa do fundo vão dizer em voz alta
aquilo que pensam sobre o governo.
Ao princípio da noite é como ter sangue
nas mãos. Talvez o tempo ainda se componha, talvez possa
telefonar a um amigo. É certo que nas ruas se torna mais fácil
distrair o medo, há sempre espaço onde pousar
a cabeça. Mas em que me torno no quarto quando não estás
a olhar? O cheiro da comida flutua ainda pelos corredores,
sente-se o peso que dorme no escuro até às entranhas.
Se pudesses ver como isso às vezes me magoa.
"Winter Night"
Rui Pires Cabral
Existindo.
"Estava apenas viva, existindo muito, respirando, olhando devagar. Sentindo a areia ceder, sob o peso do seu corpo estendido na praia, sentindo o seu corpo como uma força livre abrindo passagem, através de coisas confusas. Mas não havia pontos de referência nem limites, nada podia garantir que estava certo, para lá dessa certeza de estar vivo, não havia indicação possível no mundo exterior, era como caminhar por um areal infindável, uma praia deserta e lisa, contando unicamente com o impulso do seu corpo andando. Porque nada era claro, ela era no fundo talvez apenas um pequeno animal cego caminhando, empurrando-se para a frente, ao longo da superfície espelhada da areia, debaixo de um sol demasiado intenso, no turbilhão da luz reflectida pelo mar."
'O Silêncio',
Teolinda Gersão
a chave.
A chave que procuras só o tempo a poderá trazer. Entretanto, é tomar o comprimido e esperar, já não por outro dia, mas por outro ano, outra vida. Sabendo que só há esta. Sabendo que os anos, como os dias, se repetem. Sabendo que a chave que houver, só poderá abrir outra porta. Sabendo que o sorriso que nascer, só poderá pertencer a outros lábios.
"Broto Sofro", Jorge Roque
Averno
