Em que estás a pensar? perguntou-lhe. Em nada, disse.


O absurdo de tudo isso, disse Afonso, a paixão da paixão, a procura da procura, o desejo em último caso sem objecto, porque o seu objecto é o desejo e nada do que você conta, ou diz, ou sonha, existe,
o medo do amor, disse ela, o medo que você tem de ir ao limite de si próprio, de destruir tudo o que fica para trás e criar em seu lugar outra coisa,

Em que estás a pensar? perguntou-lhe. Em nada, disse.

"O silêncio",
Teolinda Gersão

o tempo ensinou-me

Destroços de histórias, partes de histórias mutiladas, é o que vejo, vêm de onde nunca estive, encaminham-se para onde nunca irei, algumas passam-me ao alcance da mão, mas estender a mão para quê? Para guardar no bolso o retrato do rosto que não será, para o qual inventarei um nome e chorarei uma lágrima, e conduzido pelo fascínio, direi que quero, direi que amo, direi que amanhece e o coração sorri de novo, mas conseguirei acreditar no nome que inventei, na lágrima que enxuguei com a mão, para depois olhar e reencontrar o vidro? E, no entanto, não são bem os mortos, tão pouco a minha morte com eles, o tempo ensinou-me a recebê-lo e a guardar a alegria de ter podido amar e despedir-me.

"Broto Sofro", Jorge Roque 
Averno