numa espécie de turpor.

Por vezes, não conseguimos viver com aquele que amamos - e por ele perderíamos tudo, incluindo a razão.
Vive-se sozinho, meio acordado, numa espécie de torpor. E no interior das pálpebras fazemos aparecer o rosto amado.
Gostaríamos que estivesse aqui, ao alcance das palavras que reinventamos para lhe sussurrar, ao alcance da mão e da boca, ao alcance dos sentidos e do desejo imediato.

Al Berto, 'Do Ardor da Paixão à Morte no Poema'. 
Dispersos, 2007

recados que te escrevo #1

Hoje estive contigo, avô, foi uma festa bonita, não achaste? e a Beatriz está uma rica 'Fialheca', ias gostar de a conhecer. "Trinca-Espinhas", quase te ouço chamar. E depois o riso, todo ele bochechas. E depois o teu andar. E depois tudo, porque a Arrouquelas és tu. É reencontrar-te. 

Sinto falta de te beijar a testa, de agarrar a tua mão. Ser pequena, ao teu lado, que de pequeno só altura.

O Sentido do Fim - Emoções

Quando somos novos - quando eu era novo - queremos que as nossas emoções sejam como as que conhecemos de ler nos livros. Queremos que nos virem a vida do avesso, que criem e definam uma nova realidade. Mais tarde, penso eu, queremos que façam uma coisa mais suave, uma coisa mais prática: queremos que amparem a nossa vida como ela é e como passou a ser. Queremos que nos digam que as coisas estão bem. E há nisso algum mal?

Julian Barnes
O Sentido do Fim
Quetzal
2011

 

I

Vou pôr anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro um relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos."

António Franco Alexandre
quatro caprichos
Assírio & Alvim
1999