O amor acontece. E aconteceu. Quando o trouxe para a minha vida sabia que era para sempre. Crescemos juntos e esteve sempre a meu lado nos momentos mais importantes da minha vida. Nos mais felizes, e também nos mais tristes. Lambeu as minhas lágrimas e dançou comigo. É o único ser do mundo que ronrona quando lhe canto, mesmo quando toda a gente foge. Mia quando estou longe e espera sempre por mim. É muito mimado, mas isso foi coisa que aprendemos um com o outro. Já me fez uns chichis em cima, já me pregou uns sustos, mas esteve sempre aqui. É fácil esquecer que esta minha bolinha de pêlo também envelhece, e que envelhece tão mais rápido...
Nestes últimos tempos adoeceu, pensei que o perdia mas arrebitou... hoje teve outra recaída. Trago-o a meu lado, no carro, e vou-lhe repetindo baixinho 'fica comigo, fica comigo'... e sei que é apenas o meu medo de que ele tenha de partir já. Porque é um pedaço de mim, porque inconscientemente o imaginei numa casinha minha, porque me imaginei a mostrar-lhe um bébé meu, porque o Tomáz não é só um gatinho, é o meu melhor amigo, é minha família e é amor... incondicional.
Dói o coração, pensar que um dia não o terei a meu lado.
Note to Self #1
'É a altura de escrever sobre a espera.'
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.
Luiza Neto Jorge
poesia
Assírio&Alvim
2001
O Sentido do Fim - A Memória
Vivemos com suposições tão fáceis, não vivemos? Por exemplo, de que a memória é igual aos acontecimentos mais o tempo. Mas é tudo mais acidental do que isso. Quem foi que disse que a memória é aquilo que pensávamos ter esquecido? Para nós devia ser óbvio que o tempo não actua como fixador, e sim, como dissolvente. Mas não é conveniente - não é útil - acreditar nisso; não nos ajuda a seguir com a nossa vida; por isso ignoramo-lo.
Julian Barnes
O Sentido do Fim
Quetzal
2011
