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«que me reflectem matéria quando me sinto poeira...»

February 3, 2013 Inês Espada Nobre

Brindo aos amigos
(Aos de ontem e aos de agora, aos de todos os dias, aos de todos os anos, aos de vez em quando, aos de sempre)

Brindo aos amigos
Que se metem pelas trilhas que anuncio num beijo
Que espantam os silvedos que são só fogo de vista
E avançam até às fontes de onde me brotam
Passos de dança e berlindes
Bandeiras de punhos cerrados
Búzios com cânticos sagrados
Esquecidas agulhas de grafonolas
Cavernosas tosses tuberculosas

Brindo aos amigos
Que não reclamam harmonia para além desta cacofonia que me habita

Que me reflectem matéria quando me sinto poeira
Que me revolvem brasas quando me sinto cinzas

E me fazem.

Lençol de noite de núpcias
Que orgulhosamente não se exibe mas enverga.

Joana Patrício

In Poesia, Outra Arte Tags Joana Patrício, Pintura
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Com as gaivotas

February 3, 2013 Inês Espada Nobre


Sines, 1928
Sines em Imagens

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

Eugénio de Andrade

In Poesia, Outra Arte Tags Eugénio de Andrade, Fotografia
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Canto do Amigo Morto

January 11, 2013 Inês Espada Nobre
Mark Rothko No. 7 1964 mixed media on canvas 236.4 x 193.6 cm (93 1/8 x 76 1/4 in.) NGA, Washington, Gift of The Mark Rothko Foundation, Inc.

Mark Rothko
No. 7
1964
mixed media on canvas
236.4 x 193.6 cm (93 1/8 x 76 1/4 in.)
NGA, Washington, Gift of The Mark Rothko Foundation, Inc.

"As paredes da casa movem-se lentamente, estreitam-se...
Encolhes-te nos meus braços. Lá fora continua a chover, ou talvez só chova onde um morto dorme nos meus braços.
E tu sussurras:
- Não, não afastes a boca da minha orelha. Derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
E eu digo:
- As tuas mãos queimam-me a fala.
Tu sorris, e dizes:
- Vem, sem medo, pela aridez do meu corpo. No fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. É tempo de ta devolver. É tempo de te reconheceres nela, mesmo se envelheceu. Vem, e beija a morte; repete esse gesto, como nos livros antigos se ensina a fazer. Vem, o tempo urge... as constelações já iniciaram o movimento de mudança de hemisfério, e as dunas fenderam-se onde o mar avançou, e o mar toca-nos os olhos e o sono. Vem, antes que os cardos se espalhem com o vento, e a geada esconda a água dos poços, e a noite acabe, assim, sem prevenir, dentro duma mão que se fecha a luz. Vem, antes que os meus olhos só vejam o que tu não vês, e as minhas mãos já não toquem o que tu tocaste... e a tua boca se canse de procurar o que de ti ainda possuo, e do teu nome não reste mais que uma metade do meu."

al berto
Excerto de O Anjo Mudo,
Assírio & Alvim 

In Livros, Outra Arte Tags Excertos, Mark Rothko, Pintura, Prosa, Al Berto
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8. Carta de Milfontes

January 11, 2013 Inês Espada Nobre
Al Quimias Al Berto - As imagens como desejo de poesia,  Centro Cultural Emmerico Nunes

Al Quimias
Al Berto - As imagens como desejo de poesia,
Centro Cultural Emmerico Nunes

Foi em 1978, no verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de silêncio» citei Rilke: «Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»
Depois, a paisagem onde nos encontrámos, desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus. Eu escrevia, fechado num quarto de pensão, e tu retiravas-te do meu quotidiano.
Morrias longe de mim.
O corpo que hoje regressa a Milfontes, já não é o corpo esplêndido que conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.)
O olhar embaciou-se para o que me rodeia. Hoje, sem ti, já não consigo pressentir a sombra magnífica da noite sobre o rio. Nada se acende em mim ao escrever-te esta carta.
Só a foz do rio parece guardar a memória duma fotografia há muito rasgada. O vento, esse, persegue a melancolia dos passos pelas dunas.
É possível que os verões ainda sejam o que eram... com os corpos estendidos ao sol, e a oferenda de um sorriso malicioso a confundir-se com o marulhar das águas.
Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. Não me lembro sequer de um nome que resuma o movimento desastroso dos dias.
O teu rosto deixou de se acender na ilusão de te possuir mais uma noite.
Nada evoca esse tempo de frémitos de asas sobre a pele. Nenhum rumor do rio sobe até mim. Nenhuma ferida ficou por sarar.
Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rastro dos répteis incandescentes. Sinto-me como a haste quebrada da urze ao abandono nas areias varridas pelo oceano.
Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua - e a ausência alastra em mim, cortante.
Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo de suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
Mantenho-me imóvel, tacteio teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
...
Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
...
Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.
..."


al berto
O Anjo Mudo,
Assírio & Alvim 

In Livros, Outra Arte Tags Excertos, Fotografia, Prosa, Al Berto
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As flores, as cores, a lista de desejos e o Amor. 

"Standing at the crossroads
Trying to read the signs
To tell me which way I should go
To find the answer
And all the time I know
Plant your love and let it grow."

Let it grow.
A @joanabranco84 lançou o mote, criou o grupo e, de repente, o whatsapp encheu-se de recordações de dias felizes, na FCSH. Não guardo lembrança de todos, e confesso que tenho mais memórias com a esplanada ama
Não tenho muitas fotos minhas, recentes, que não sejam selfies desfocadas com a Matilde. Esta foto tirou-me o André, no parque, numa pausa entre os baloiços e o escorrega. 

"Acho que estou a ver uma versão da
🫂
Trago novidades neste início de ano! No dia 17 de Janeiro, pelas 16h30, o Centro de Artes de Sines abriu-me as portas para vos mostrar este livro pequenino e jeitosinho - que cabe em qualquer telemóvel ou tablet mas, sobretudo, espero q
I take up space.
I exist.
I am.

I’ve put into words the portal I’m soon to enter. You can read it through the link in my bio.

//

Eu ocupo espaço.
Eu existo.
Eu sou.

Escrevi sobre este portal que, em breve, adentrarei. Link na b
A vida nos últimos dias, entre as caixas e a casa que ganha forma. Entre o luto de partes que morrem para que a vida se renove, o @cafelabpt que me é palco de rituais silenciosos de passagem, da vida que se tece entre tantas que se enla
Pequenos lembretes para regressar ao essencial. Para não nos deixarmos engolir pela pressa dos dias.

🌿
Na noite da Boa Morte, honramos quem veio antes de nós. Quem abriu caminho para que pudéssemos hoje ser.

Acendemos velas, cozinhamos memórias, dançamos com o invisível.

Eles vivem. 
Em nós, no sangue, no ge
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Pay attention.
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Tell about it.”
— Mary Oliver
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