Levo-te a ti...


Neste infinito fim que nos alcançou
Guardo uma lágrima vinda do fundo
Guardo um sorriso virado para o mundo
Guardo um sonho que nunca chegou

Na minha casa de paredes caídas
Penduro espelhos cor de prata
Guardo reflexos do canto que mata
Guardo uma arca de rimas perdidas

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci...

No mundo onde tudo parece estar certo
Guardo os defeitos que me atam ao chão
Guardo muralhas feitas de cartão
Guardo um olhar que parecia tão perto

Para o país do esquecer o nunca nascido
Levo a espada e a armadura de ferro
Levo o escudo e o cavalo negro
Levo-te a ti... levo-te a ti... levo-te a ti
para sempre comigo...

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que nunca perdi.


Toranja
Fim (Dias Que Passam) 


Guardo-te. Para sempre.
5.3

da certeza

Cheirava a mar, naquela manhã de domingo.
Ela enroscara-se na poltrona da varanda, olhava o vazio. 
Nunca se sentira tão desamparada como naquele momento. O telefone caíra esquecido a seus pés.

Ele dormia alheado de tudo.

Levantara-se cedo nessa manhã, mal conseguira pregar olho. Acordara de todas as vezes que os seus corpos quase se tocaram. Precisava de sair daquela cama. Lavar a culpa. Precisava de falar com alguém, não necessariamente contar o que lhe ia na alma, isso ela nunca conseguiria fazê-lo. Precisava apenas de ouvir uma voz, uma voz que a fizesse sentir que não deixara de pertencer.

Sentia o coração embrulhado. O seu mundo começara a tremer como se estivesse prestes a ruir, como se tivesse sido construído sem bases, e ela sabia que isso era uma mentira, uma ilusão, ou somente o seu medo de ruir com ele, de desabar em dúvidas. Sabia, dentro de si, onde se sabem as coisas ainda antes de as sabermos, que era ali que queria estar, que ele era o seu sítio. 
Ouvia as gaivotas e sentia-se parte de todo aquele cenário. Como se tivesse sido moldada para aquela paisagem. 

«-Sabes... é como se este lugar coincidisse com o meu mundo interior. Como se fosse um reflexo...»*

O quarto estava silencioso, abriu a porta e tacteou o escuro em direcção à cama. Não o ouvia, mas sabia que ele já a pressentira. Levantou a manta e deitou-se junto a ele. Sentiu que lhe sorria - poderia sentir o sorriso dele em qualquer altura, mesmo num quarto escuro, e sabia sempre quando aquele sorriso era para ela -, deixou-se ficar com a cabeça no seu peito, sentiu como os dedos dele lhe acariciavam os cabelos, como lhe beijava a testa, queria falar-lhe e sentia as palavras presas na garganta. Sabia que ia desabar, que as lágrimas iam cair e não saberia o que dizer-lhe. Ele apertou-a com mais força junto a si. "O que tens? O que aconteceu?" e nem por um segundo aqueles braços deixaram de a segurar. 

"Tens a certeza, não tens?", ouviu-se perguntar. Soube, naquele exacto momento, que não formulara essa pergunta para ele, que já lhe respondera de todas as formas sem que fossem necessárias palavras, mas a ela própria. Viu-se projectada nele, junto a ele, como se fossem duas. Viu como se seguravam um ao outro, como se protegiam do mundo. Viu como as suas vidas se encaixavam sem que deixassem de ser. E teve a certeza.

Sim, tenho a certeza. 

_
* excerto de "Num Lugar Solitário", Ana Teresa Pereira 

André.


Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós, a acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez, todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento. Todas as raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor fora do tempo e do espaço, como se só na tua pele a minha fosse lume. Quando é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar, para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viciados num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida. Respiração boca a boca, ar incandescente. Como se fosse inesgotável e nos invadisse a boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso infinito. Foi há sete anos, meu amor.

Fernando Pinto Amaral

via sketches for my sweetheart the drunk