A minha filha.

Escrever sobre a minha filha é escrever sobre um mundo encantado que principia a existir. Um livro em branco à espera das suas cores, purpurinas, melodias.

Escrever sobre a minha filha é tentar resgatar de mim as palavras mais bonitas e ficar sempre aquém. Uma menina-poema que, como qualquer bom poema, nos agarrou no coração e o tornou do avesso.

Habita-me o corpo e toda a existência, e já me tornou - em igual medida - na pessoa mais forte e mais frágil que habita os dias.

Auguros.

Ontem deitei-me tarde, não tinha sono, deitei-me no chão do sótão com um livro e fiquei a olhar o tecto. Esperava a chuva que haviam prometido. Há muito tempo que não me sentia assim, nesta ansiedade de quem tem visita de estudo amanhã, de quem vai quebrar a rotina para ver coisas incríveis. Eu queria ver a chuva. Quando os olhos não aguentaram mais, adormeci.

Hoje acordei com o som da chuva nos telhados... saltei da cama e, entre os afazeres da manhã, preparei um chá quentinho - não me lembro da última vez que preparei um chá, os dias frios já estão tão longe. Deixei-me ficar assim, junto à janela, com uma chávena de chá nas mãos, a ver a chuva a cair e o dia a acontecer alheado a ela.

Lá em baixo, o rio, que já mal se avistava da minha janela, corre apressado. Espero que não vá atrasado e que volte a tempo do jantar. Espero que fique por cá mais uns tempos, tenho saudades de o ver correr com vagar.

Quanto à chuva, que fique o tempo necessário para que amanheçamos todos mais felizes. Que traga auguro de abundância e bons presságios.