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o que verdadeiramente me dói não são as palavras
que nestes anos todos ficaram por dizer
arrumadas entre os medos que não gritámos juntos
e os sonhos que não transpirei na tua pele

o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas

nunca os meus olhos guardaram imagem mais nítida
que a tua entre os maços de gitanes
e a poeira de maio

no minúsculo quarto em que tentámos acreditar
no futuro que não iria ser o de ninguém
e no entanto tu olhavas para mim e dizias este
será o lugar onde havemos de morrer
e os nossos amigos marcavam encontros
para as tardes em que estaríamos ali sozinhos
à lareira de pacíficos invernos familiares

hoje sei
que te devia ter colado então ao meu silêncio
para que levasses no fundo dos teus olhos
a cor dos meus
ainda que totalmente despidos de ti
mas não fui a tempo e alguém junto a nós disse
as pequenas mentiras mordem até ao fim
e eu comecei a falar de outras coisas
mas foi isso tenho a certeza que nos matou
por isso te peço agora ajuda-me
a não pecar outra vez do mesmo modo
para que os deuses não se cansem
de voltarem a pôr tudo no lugar certo

olha para mim não tenhas medo dá-me
camélias cravos azáleas o que houver
descobre a única palavra verdadeiramente nossa
a única a poder ensinar-nos ainda o rasto

das noites em que a cidade era um braseiro
e nós ardíamos no lume das pedras e das nossas línguas
enquanto os pardais se confundiam na vidraça
das janelas que escancarávamos por maio fora

e de repente eu disse os nossos filhos
vão ver um dia este retrato e querer saber
o que aconteceu
- mas nesse momento em que já dificilmente
se articulavam as palavras
tu olhaste as horas e desceste as escadas em silêncio
porque assim eu tinha pedido que fizesses

e a dona do hotel a prometer-nos
para além de domingos de sol
despedidas breves e indolores
 

 

Alice Vieira
Cinco breves momentos de maio

Sines, 23 de Junho de 2015

a Antónia.
há coisas que precisam de ser escritas para que se celebrem. 


casar não é, não deveria ser, um passo leve. não se pensa em casar de hoje para amanhã, é uma decisão ponderada, trabalhada, é um passo que se dá porque faz sentido e não porque tem de ser, porque é melhor, ou porque a família quer e quer já. connosco aconteceu assim, a família queria, claro, mas nós só decidimos quando decidimos.
contudo, casar não deixa de ser uma decisão de peso, mesmo depois de feita. 

na véspera do meu casamento todo o meu corpo estava no núcleo de um tornado. a cabeça estava num turbilhão de memórias e o coração completamente perdido. não sei se algum dia desceram ao Poço Iniciático na Quinta da Regaleira, em Sintra, mas se não o fizeram acho que deviam fazê-lo pelo menos uma vez na vida (com guia!). o que senti nesse final de dia foi próximo da descida iniciática, como se caísse em mim toda a simbologia do Poço, como se tivesse descido às trevas de mim mesma... para renascer. e chorei, chorei muito. 

a Antónia, amiga da minha mãe - amiga física: de poucos anos, de coração: quase de uma vida - que acompanhou todo este processo de planeamento de casamento até ao último dia para as decorações finais, com o seu coração tamanho mundo e no meio de todo o meu pranto pré-matrimonial, pegou na minha mão e puxou-me a um mundo só dela, tudo o que me disse naquele instante pareceu encaixar-se nas falhas do meu pensamento andarilho. As coisas, as pessoas, as memórias, têm a importância que lhes dermos e importante era o dia que ia acontecer dali a umas horas, isso era importante, o meu coração era importante, tudo o resto eram estilhaços que dificilmente cola alguma uniria.  

serve o presente desabafo para isto: há pessoas que nos tocam de formas tão simples e tão naturais que elas próprias não sabem o quão foram importantes neste e naquele momento da nossa vida. a Antónia é já parte da família, é unânime, e não atravessa, "hoje", um momento fácil. e por isso desejo, celebrando-a, que as minhas palavras e o amor que nelas ponho lhe tragam um pouco mais de força, à força enorme que só uma mulher como ela carrega. 




 

BWV 988

Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg
Não sei, não quero saber, não faço ideia. 

Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.

Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis 
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.

O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto. 
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.

É tudo - sabes? - tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.

Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale 
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham 
o bem comum, a cidadania do terror. 

E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim, 
gostava de ser felino - uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).

E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demora asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria 
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.

Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.

A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.    
Em vez disso, os orgãos acomodam-se 
ao suplício dos minutos, desagregam-se.
E bastarias tu - ou ninguém, porque
ninguém basta. É um erro - mas gostamos 
tanto - pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.

E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos,
para ti, foram sempre sentimentos vãos).

Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram - ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.

O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.

Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.

Qualquer coisa assim.

"We are flint and steel to each other."

Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço - alguém sabe 
onde nos levam? Dão-nos 
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero

lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete 
que mal chegámos a ouvir,
hora e meia de remorso

e distorção. Não te salvo, 
não me salvas - nem é certo,
quando o medo se demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar 
o dissabor de viver. 

 

Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira,
Averno