Sines, 13 de Novembro de 2014

há sempre uma certa nostalgia que chega com a chuva. um não-sei-quê que se sente no peito e que nos aperta a garganta. há que tempos que não me dava para escrever nada, o diário amarelece num vazio teimoso. há coisas que nem em palavras se conseguem traduzir. há dias em que acordo de manhã e me sinto capaz de qualquer coisa "hoje, se quisesse, voava", mas depois desperto para a realidade que me rodeia: uma terra que não é a minha, mas que agora o é, embora eu o esqueça demasiadas vezes, a realidade de não ter um emprego nem perspectivas, a realidade de uma nova vida para a qual não me preparei. Procuro fazer coisas que nunca fiz, aprender coisas sobre as quais não conheço nada. Arregaçar as mangas e por mãos à obra. Agora quero aprender mais sobre bricolage, hoje quero ser carpinteira, amanhã posso ser outra coisa? apetece-me sujar as mãos, criar, ver crescer... como se responde à pergunta: "o que gostavas de fazer?", quando se quer tanta coisa? como se responde à pergunta: "o que gostavas de fazer?" quando nos estamos constantemente a travar, com ideias pré-concebidas como o "não vai funcionar", "não vou conseguir", "não me vai dar dinheiro". é que no fim, há contas para pagar, uma casa para sustentar, dois felinos e uma família para criar. sinto-me tão perdida. 

Pássaros em Círculo

(Antonio Gamoneda)

 

Atravessamos o jardim, 
                                e, sob os nossos passos,
a neve estala como pão acabado de fazer.

Tudo tem a cor da palavra
que ainda não foi escrita.
É a hora.

Abraçados no meio do silêncio
parecemos dois anjos de barro.

Não importa se te digo "não voltes tarde a casa",
da necessidade daquele que fica
não depende o reencontro.

Abro o gradeamento.
A sensação de perda gira dentro de mim
como um cão que ladra e que dá voltas
em redor de uma árvore.

Não importa se te digo para ficares.

A neve desnasce-se,
mostrando a fugacidade da beleza:
(amo-te porque sim, não para que o tempo
venha a ser mais benévolo comigo).

O sol reconcilia-nos com a morte.

É a hora.
O relógio dos pássaros serve de tecto ao dia. 




Josep M. Rodríguez

it is so long since my heart has been with yours

it is so long since my heart has been with yours

shut by our mingling arms through
a darkness where new lights begin and
increase,
since your mind has walked into
my kiss as a stranger
into the streets and colours of a town–

that i have perhaps forgotten
how,always(from
these hurrying crudities
of blood and flesh)Love
coins His most gradual gesture,

and whittles life to eternity

–after which our separating selves become museums
filled with skilfully stuffed memories

 

 

e.e. cummings