por vezes a memória doutros dias chega-me de imagens fixas
mas se a vida germinasse dalgum cristal de prata
oculto nesta cabeça esculpida em pano erguendo-se
sob o peso duma lua artificial... abandonaria o riso
e a tristeza do corpo... partiria à procura
do segredo eterno das pirâmides ou dessa revelação
ainda em suspensão no revelador dos nocturnos laboratórios
ali guardas a travessia das cidades do mundo
e o mistério desta boca para sempre muda estes ossos
que posso tocar sem me ferir na escuridão do olhar
no zénite da noite levantar-se-ia o terno dedo
incendiando a leveza do papel mergulhado no fixador
imobilizaria o desejo
e todas as imagens se tornariam apenas resíduos
visões ainda longínquas dalguma catástrofe... os rostos
que na penumbra partilharam connosco a vida e
depois se ocultaram
começou a falhar-me a memória
já não sei se esta cabeça de pano existe ou ainda existirá
onde a contemplo... tenho medo
medo que me segrede quanta solidão está ainda intacta
Al Berto
"O Medo",
Assírio & Alvim
Ao Espelho
Exponho as mãos - e o teu sorriso, figura, é hábil.
Coloco uma flor de pólvora sob o esterno - e agita os
membros, inquieto, descendo na memória, procurando um
lugar para a paixão no enovelado das palavras que te
ocorrem.
Vou modificando a coloração dos olhos, alterando os países
onde simultaneamente vivo; entretanto, nada te fixa ou prende
moves-te, subtil, nas imagens que espontaneamente se vão
acastelando na difusão do cérebro.
A audácia, inconsequente, ambígua, que usas como
máscara - irá consumar-se num fogo do qual te julgas
distante,
que não poderão recusar; e te dará o único momento de
amor verdadeiro - frente ao que não existe a possibilidade
de dúvida; tem a palavra que o designa cinco letras
negras; soa asperamente; a sua música é a do
Momento Absoluto.
1962
Manuel de Castro
Sines, 19 de Março de 2014
Vêm embrulhadas e aos trambolhões coração acima, amarram-se em nó na garganta e não há quem as puxe boca fora.
depois ficam assim, tom angústia em sorriso amarelo.
dos que assentam como luvas.
Escuro
Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.
Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.
Rui Pires Cabral
