Cabeça de Pano

por vezes a memória doutros dias chega-me de imagens fixas
mas se a vida germinasse dalgum cristal de prata
oculto nesta cabeça esculpida em pano erguendo-se
sob o peso duma lua artificial... abandonaria o riso
e a tristeza do corpo... partiria à procura
do segredo eterno das pirâmides ou dessa revelação
ainda em suspensão no revelador dos nocturnos laboratórios

ali guardas a travessia das cidades do mundo
e o mistério desta boca para sempre muda estes ossos
que posso tocar sem me ferir na escuridão do olhar

no zénite da noite levantar-se-ia o terno dedo
incendiando a leveza do papel mergulhado no fixador 
imobilizaria o desejo
e todas as imagens se tornariam apenas resíduos
visões ainda longínquas dalguma catástrofe... os rostos 
que na penumbra partilharam connosco a vida e
depois se ocultaram

começou a falhar-me a memória
já não sei se esta cabeça de pano existe ou ainda existirá
onde a contemplo... tenho medo
medo que me segrede quanta solidão está ainda intacta



Al Berto
"O Medo",
Assírio & Alvim

Ao Espelho

Exponho as mãos - e o teu sorriso, figura, é hábil.
Coloco uma flor de pólvora sob o esterno - e agita os
membros, inquieto, descendo na memória, procurando um
lugar para a paixão no enovelado das palavras que te
ocorrem.
Vou modificando a coloração dos olhos, alterando os países 
onde simultaneamente vivo; entretanto, nada te fixa ou prende
moves-te, subtil, nas imagens que espontaneamente se vão
acastelando na difusão do cérebro.
A audácia, inconsequente, ambígua, que usas como
máscara - irá consumar-se num fogo do qual te julgas 
distante, 
que não poderão recusar; e te dará o único momento de
amor verdadeiro - frente ao que não existe a possibilidade 
de dúvida; tem a palavra que o designa cinco letras
negras; soa asperamente; a sua música é a do

 
                                      Momento Absoluto.

 
                                                                                      1962
 


Manuel de Castro