A dor não humaniza ou enobrece,
não faz de nós melhores nem nos salva,
nada a justifica nem a invalida.
A dor não perdoa nem imuniza,
não fortalece ou dulcifica a alma,
não cria nada e nada a destrói.
A dor existe sempre e volta sempre,
nenhum dos seus actos será o último
e todos podem ser definitivos.
A dor mais terrível consegue sempre
ser mais intensa ainda e ser eterna.
Vai sempre acompanhada pelo medo
e ambos se alimentam um ao outro.
Amalia Bautista
Estou Ausente
Averno
Como uma Canção
Me disse e foi, não voltou mais. Agora como faço e vivo? Falou: muito fácil, canja, favas contadas. Tu vais, todos os dias limpas, todo o dia; vais para o trabalho, trabalhar é bom, tu vais e não pensas: só trabalhas, pegas no esfregão, passas por uma superfície suja. Ou não. Ou tu vais e falas, ensinas; ou não, não falas. Tu vais e investigas. Ou cavas a terra, ou tu vais e plantas batatas, crias o gado, apascentas ovelhas. Vigias a velhice, lavas os dentes. Eu vou. Tu ficas, ele disse. Me disse e foi. Comes o pão. E respiras. Para dentro e para fora. Lavas a roupa, partes a pedra, colhes flores de manhã. Olhas os cães, amas ou não. Aborreces-te, cantas baixinho, contas as batidas do teu coração. Aqui ou ali, com este ou aquele. Sem mim. Eu vou. Vou e não volto nunca mais. O mundo é grande e eu quero andar. Tu choras. E depois ris, enrolas o cabelo com ganchos. Trancas a porta, vês as galinhas porem ovos, os peixes do mar.
E depois um dia abres a cova, enfias-te nela, fechas os olhos e deitas por cima a terra. E vais.
Sara Monteiro
primeira antologia de micro-ficção portuguesa,
Exodus
«às vezes isso acontece...»*
e eu sinto paz.
*palavras tuas.
Sin titulo, 1969
Mark Rothko
work in progress.
via i love doodle
