(SJ-06)


as formas de conhecer-te 
são só duas
ou três; esta é a que demora mais tempo.
a chuva parou e continuamos distraídos neste
amor de cabotagem, nunca demasiado
longe ou perto da carne e dos orgãos que uma
abóbada de ossos protege. cumprimos
a liturgia das horas, repetida sem convicção ou
eficácia, e por vezes as palavras começam
a fazer sentido, como os gestos com que
te aproximo de mim, com uma só mão
e algum sono. uma navegação lenta,
familiar e confortável, porque
essa é a melhor forma de te conhecer
os dedos e o modo como os usas
para fazer tranças às horas, como quem
tece cabelos ou desfia um rosário
sem murmúrios, apenas a técnica de rodar
terços e mistérios no fundo da mão
para entreter os pretendentes e
esperar que eu regresse das longas
viagens - dez anos de cada vez -
em que me ausento sem sair de casa.
esta tarde estive em Lisboa e trago-te maçãs
vermelhas de uma mercearia da rua dos Lusíadas,
com as quais tenciono adormecer-te (como
na história que contamos todas as noites), porque
é essa a única forma de te conhecer
os medos e interpretar os sonhos, escrever
ao teu lado, enquanto dormes, a lista
das tarefas diárias com que nos ocupamos a
matar o tempo.
 
 
Tiago Araújo

 

 

recados que te escrevo #4


«trinca-espinhas»,

não sabes a falta que nos fazes.
às vezes apetece-me gritar-te "porque raio nos deixaste aqui, sem ti?"
travo-me ainda antes de abrir a boca. envergonho-me. como poderia gritar-te? a ti?
foi injusto. foi injusto para nós, tu estavas pronto. não querias, mas estavas pronto.

e foste, abriste a porta e foste. e lembro-me de cada instante desse dia. e da dor que ainda dói como se ainda. como se sempre, porque isto é dor que não sara nunca.

onde estás no meu amanhã? 
sinto (tanto) a falta de agarrar a tua mão, avô. 

tenho medo de te esquecer. de te lembrar apenas de fotografias, de vídeos antigos. 
tenho medo de esquecer o teu sorriso, a forma como nos olhavas, o teu andar. 
esquecer de como adoravas caramelos e rebuçados de fruta, de como nunca faltavam pacotes lá em casa, e como os ias buscar às escondidas quando sabias que não devias. Porque tudo o que nos restam são memórias... memórias que se atraiçoam com o correr do tempo. 


 

Jimmy.


'Quando eu era pequena havia um menino de quem eu gostava. Não sei porquê, mas gostava dele. Eu tinha oito anos e ele tinha a mesma idade. Chamava-se James Crawford. Creio que era um menino muito tímido. Falava só com os outros meninos e evitava misturar-se com as meninas. Tinha o cabelo muito escuro e os olhos castanhos. Andava sempre de calções curtos, mesmo quando os outros meninos começaram a usar calções compridos. Na primeira vez que falei com ele, lembrei-me disto há muito pouco tempo, eu não lhe chamei James, mas Jimmy. Ninguém o chamava assim. Fui eu. Tínhamos ambos oito anos. O seu rosto era muito sério. Porque razão falei com ele? Acho que ele se esqueceu de qualquer coisa na carteira, talvez uma borracha ou um lápis, disso já não me lembro, e eu disse-lhe: Jimmy, esqueceste-te da borracha. Lembro-me, sim, que eu sorria. Também me lembro porque é que lhe chamei Jimmy e não James ou Jim. Por carinho. Por prazer. Porque eu gostava do Jimmy e achava que ele era muito bonito.

(...)

Em Santa Teresa, nessa cidade horrível, dizia a mensagem de Norton, pensei em Jimmy, mas sobretudo pensei em mim, naquela que eu era aos oito anos e, a princípio, as ideias saltavam, as imagens saltavam, parecia que tinha um terramoto dentro da cabeça, era incapaz de fixar com precisão ou com clareza uma recordação que fosse, mas quando finalmente consegui foi pior, vi-me a mim mesma a dizer Jimmy, vi o meu sorriso, o rosto sério de Jimmy Crawford, o tropel de crianças, as suas costas, a ondulação repentina cujo remanso era o pátio, vi os meus lábios que avisavam aquele menino do seu esquecimento, vi a borracha, ou talvez fosse um lápis, vi com os olhos que agora tenho, os olhos que naquele instante tinha e ouvi uma vez mais o meu chamamento, o timbre da minha voz, a educação extrema de uma menina de oito anos que chama por um menino de oito anos para o avisar de que não se esqueça da sua borracha e que, no entanto, não pode fazê-lo chamando-o pelo seu nome, James, ou Crawford, tal como é usual na escola, e prefere, consciente ou inconscientemente, empregar o diminutivo Jimmy, que denota carinho, um carinho verbal, um carinho pessoal, pois só ela, nesse instante que é um mundo, o chama assim, e que de alguma maneira reveste com outras roupagens o carinho ou a atenção implícita no gesto de o avisar de um esquecimento, não te esqueças da tua borracha, ou do teu lápis e que, no fundo, não era mais do que a expressão, verbalmente rica, da felicidade.'


Roberto Bolaño,
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