Fotografias

Nesta vida - é um facto - estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos remos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.

Rui Pires Cabral

decepção à regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros  que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?


João Luís Barreto Guimarães 

Podia morrer por uma só dessas coisas que trazemos sem que possam ser ditas


A propósito do dia de ontem. Da minha conversa com a Rosa, na sua Livraria Escriba. Para reler, para me apaixonar.

 

A ESTRADA BRANCA


Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
 
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
 
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate.

José Tolentino Mendonça

LITERATURA

De literalmente aturar
atura a minha literatura
estar entre toda a Literatura que há até hoje e houve
e literatura nenhuma.
Se é surrealista ou não em suma
não sei responder.
Se ela é existencialista
por exemplo que sei eu
entre os franceses por exemplo
dos franceses
André Frénaud
e os esquizofrénicos de Paris
do frio
o frio
não me deixa se calhar ser.
Que eu tanto canto
a existência do frio como do calor
a existência do Verão e do Sol
como da chuva e do Inverno
eu canto qualquer coisa
eterno provedor da minha república
só interior de cantar.
Senão, ó bela, é instaurarem-me
um processo que não dá para o petróleo
cole-o o tempo ao ramo
o amo ao cavalo
que exprimo e falo de mim primeiro
primeiro de mim
depois e só depois dos outros sim
e entre os dois enfim
ganhar qualquer coisinha
para a espinha que dói muito a escrever
senão é ver.
Beber umas coisas
e se ela noutra arte pousar
e cá isso de surrealista ou existencialista
não o sei ainda que a mim não mo disseram.
Só considerar isso das duas coisas.
À parte isso falo de existir
ganhar uns carcanhóis
com a arte de escribir
comer uns caracóis com o dinheiro arranjado
fumar uns cigarróis
beber cá umas coisas
e de artes só há duas.
Sub-reptilmente
ou existencialmente ainda continuar.
Existentivamente.
Comer.
Beber.
Escrever.
Mais umas mulheres nuas.

António Gancho