hoje sei como se perde a noite.

O coração assemelha-se
a quanto posso perder
- tudo - junto a ti.
Sob o sinal de anos pretéritos
a sós com o meu olhar
a colecção das nossas perdas
ganha um involuntário valor
sobre estes dias.
Adere a cada hora
um significado como uma forma
de gravidade sobre o tempo.
 
Hoje sei como se perde
a noite e nela a vida; como se
decompõe entre a luz e a sombra
onde um corpo espera.
 
Não é a ausência, tão-só o amor
quem faz esta vigília, esse excesso
que é também abreviatura
e aqui termina.
 
 

Rui Miguel Ribeiro, XX Dias, Averno, 2009

Não te esqueças de me visitar

não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de
Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso
amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas
vidas e no mundo.

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem 
as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos 
telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar 
comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma 
maneira única e inesquecível.

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de
demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão
cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre
mesmo nos lugares mais altos.

 

gil t. sousa

(memória)

Da carta que não chegou às tuas mãos, ficou um passado memorável. Nela constavam os pequenos episódios que vivemos juntos. Rasguei-a junto ao rio, fiquei a olhar os pedaços de papel serem absorvidos pelas águas turvas. A tentativa de apagar finalmente o nosso passado. Dirias que não havia necessidade, dirias que o que vivêramos não valia assim tanto, nem mesmo três folhas escritas com o coração nas mãos, a arder. Eu sorriria diante de ti como alguém que morresse. Despiria as roupas e lançar-me-ia na corrente fria. Tentaria recuperar o que conseguisse, pedaço a pedaço, até afogar-me de vez. Só existem duas razões para mexer numa ferida. Curá-la, ou abri-la ainda mais.

 

Fernando Dinis,
Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, exodus.