recados que te escrevo #2

Olha... queres ouvir? tinha tantas coisas para te contar! tanta coisa que tem acontecido! Ias ficar feliz - não ouças o que a avó te diz, já sabes que exagera sempre - a mãe continua reguilona, sim, não passa e com a idade apura. O Tinho parece-se cada vez mais contigo, o andar calmo, os teus passos, a mesma postura. Havia de nos ficar um Fialho como tu, não era? Ficou. A família continua a encontrar-se naquele cantinho especial que nos ensinaste a amar. Ainda não descobrimos a prima Amélia da Arrifana, mas não desistimos. Os Brincos-de-Princesa estão cada vez mais bonitos, e sabes que são as flores que mais duram no nosso jardim?! Nem te vou contar as vezes que o pai já deu cabo das flores... havias de te rir, assim, daquela tua maneira, a levantar ligeiramente os ombros. Assim, com ar de reguila. Assim, a enternecer-nos. Assim, a brincar com o tempo como quem fica para sempre. Tenho muitas saudades tuas, trinca-espinhas.

...

há um abraço apertado que nos arranca do chão. há uma mão que agarra a nossa e diz tudo sem dizer nada. há sorrisos magoados. depois há o que é e o que foi... e a linha tão ténue que o divide.

aprender a voar.

não pensei dar três passos, sem voltar dois atrás para agarrar a tua mão. "calma, filhota", ouço-te dizer, à noite, que é quando ainda te deixo existir. e achei que não sobreviveria sem o teu riso, as nossas gargalhadas, que o mundo que nos inventara, de onde não consigo sair, ruiria com a tua ausência. quero contar-te que dei cinco passos, que voltei atrás e já não estava lá a tua mão, que dei mais três com medo de cair por não estares lá para me apanhar. mas que mesmo sem ti, aprendi a voar.